SOBRE O ENVOLVIMENTO COM PORNOGRAFIA NA INTERNET

Podemos nos perguntar quais as razões do aumento considerável de busca pela pornografia na internet hoje em dia? Há várias possibilidades de resposta, passando inclusive pela própria facilitação que o mundo virtual provê para isso hoje em dia.

O cardápio de opções virtuais é imenso, e vai desde sites pornográficos até salas de bate-papo virtual com temas específicos ou, nas inovações mais recentes, aparelhos vibradores(tanto masculinos como femininos) acoplados aos computadores e acionados pelo ‘parceiro’ virtual. Todavia, entendemos que o que está por trás de tal prática é a expressão máxima do individualismo contemporâneo. O outro serve apenas de estímulo à minha fantasia pessoal. Trata-se apenas de um objeto, que pode estar a quilômetros de distância, mas que alimenta meu cérebro – que, diga-se de passagem, é o nosso principal órgão sexual.

A redução à ideia fisiológica do sexo como sendo algo que tem por função exclusivamente gerar um prazer sensorial e orgânico leva ao NÃO relacionamento.

Não existe afeto, não existe comprometimento, muito menos conhecimento do outro. Apenas a possibilidade de se dar vazão às fantasias mais primitivas com “alguém” que se reduz a imagens na tela do computador ou, no máximo, a uma voz – jamais a uma pessoa.

Parece engraçado afirmar isso, mas a pessoa na internet está fazendo sexo com letras e imagens, mas acredita que está se relacionando com outra pessoa – ironicamente poderíamos dizer que esse é um “ato de fé”.

As centrais telefônicas de sexo, em alta na década de 90 do século passado, revelaram nos seus bastidores a comicidade da situação. Em geral as atendentes eram senhoras e senhores, aposentados, com mais de 60 anos, que se faziam passar por jovens ardentes amantes. Eram treinadas para falar frases de impacto que alimentassem a fantasia dos ouvintes e prolongassem o máximo possível o diálogo – que era alimentado pelo vil metal a cada segundo. Do outro lado da linha o sedento fantasioso nem se dava conta da arapuca que levava o ‘pão de cada dia’ aos bolsos de inescrupulosos ‘empresários’ do sexo.

Entretanto o sexo virtual continua numa linha ascendente, sendo acessado por pessoas inteligentes e esclarecidas. Por quê? Porque é a promessa de satisfação dos ‘instintos’¹ mais primitivos; é onde nada é proibido; onde a identidade não é revelada e aflora-se então o pior que há dentro de cada pessoa. Essa combinação de fatores leva facilmente à compulsão sexual.

A compulsão sexual é um tema que vem sendo abordado de forma crescente no cenário médico internacional. O modelo médico tradicional segue uma visão baseada no patológico. Historicamente a palavra moléstia se referia as desordens físicas, que segundo Schaumburg (1997)², causavam um funcionamento impróprio do corpo. Contudo, as desordens emocionais e comportamentais não eram consideradas moléstias.

Porém, atualmente, diversos profissionais enquadram a compulsão sexual como moléstia. Este padrão médico de enfermidade expõe o vício sexual a um comportamento que as pessoas não podem controlar. Dentro desse enfoque os dependentes sexuais são considerados vítimas passivas e isto oferece um conforto real. Mas esta atitude, diz Schaumburg (1997), encobrem causas mais profundas.

A psiquiatria encontra muita dificuldade em conceituar o indivíduo portador do sintoma hipersexual devido a não uniformidade dos mesmos. Embora alguns pacientes possuam sutil ou até severos comprometimentos, não existe em muitos pacientes com este sintoma a evidência de outra disfunção neuropsiquiátrica. Surgindo a dúvida: “Nos indivíduos sem nenhuma evidência de outra disfunção neuropsiquiátrica além da atividade sexual numericamente incomum, estaria correto pensarmos numa patologia, ou seja, estaríamos diante de uma condição médica, ética ou simplesmente pessoal?” (Ballone, 2002)³.

De qualquer forma, existe um sofrimento psíquico muito grande nas pessoas que buscam a atividade sexual de forma compulsiva. Segundo Carnes (1991)⁴ o compulsivo sexual possui uma baixa auto-estima. Eles possuem vergonha de si mesmo e a vergonha está ligada à rejeição.

A vergonha é provocada pela compulsão e a vergonha causa a compulsão, num movimento circular. A dependência sexual e a vergonha estão interligadas em níveis profundos da personalidade do sujeito. A pessoa não aceita quem é e o que faz.

Conforme Satir (1967)⁵ a escolha de um parceiro(a) se configura baseada na autoestima do sujeito. Dessa forma, uma pessoa com uma autoestima reduzida nutre a respeito de si sentimentos de desvalia: a autoestima está vinculada ao que os outros acham de si; sua autonomia e individualidade são ceifadas, pois depende do aval de outros; não se sente bom o suficiente para o outro; nunca ficou separada dos pais e nem desenvolveu uma relação de igualdade; possui temores em relação ao outro, não confiando nos relacionamentos.

Como não se vê capaz de ter alguém que o ame, o compulsivo sexual, coleciona relações passageiras na tentativa de tamponar a dor de não pertencer. Se ele encontra alguém que lhe traga esperança, este despeja todas as suas expectativas sobre o parceiro: ‘ele ou ela vai cuidar e mim’. A frustração aumenta quando percebe que o outro não é capaz disto, então a busca recomeça. Alguns compulsivos estão tão desiludidos em encontrar alguém que ‘valha a pena’, que eles se conformam em ter apenas relacionamentos informais.

A pornografia logo incrementa a transitoriedade relacional, pois é a mais pura expressão da relação com o ato em si e não com a pessoa que participa do ato. Na pornografia o outro é ‘quase’ dispensável. Importa é a realização da fantasia – independe se esta cause dor ou prazer ao outro. Abre a possibilidade assim de condutas das mais bizarras, sempre evitando um relacionamento de pessoa-pessoa.

Pequenas mudanças de hábitos, mecanismos de bloqueio a sites e salas de bate-papo, implantação de senhas (que podem ficar de posse exclusiva de um conselheiro) são ferramentas úteis.

O objetivo final é o desenvolvimento do sentido da pessoa – o outro em relação. Sair do mundo centrado em seu umbigo e descobrir a beleza da relação com o outro real, menos factível em fantasias de perversão, mas mais pleno de sentido, de afeto e de realização a partir do encontro real.

Prof. Dr. Carlos “Catito” Grzybowski
Psicólogo – Terapeuta Familiar
Coordenador de EIRENE DO BRASIL
e-mail: catito@eirene.com.br

1 Entenda-se aqui a ideia de instinto não como algo de natureza genética, mas como construção social de perversões sexuais.
2 SCHAUMBURG, H. Falsa intimidade: compreendendo a luta do vício sexual. 2 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1997
3 BALLONE, G. J. Comportamento sexual Compulsivo in psiqweb Psiquiatria geral, internet, disponível em: <http://gballone.sites.uol.com.br/sexo/hipersexo.html>, 2002.
4 CARNES, P. Isto não é amor. São Paulo: Circulo do Livro, 1991.
5 SATIR, V. Terapia do Grupo Familiar. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1967.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *